Durante décadas, a origem de um produto funcionou quase como um selo de qualidade - ou de desconfiança. O conceito Country of Origin Effect (COE) explica exatamente isso: a forma como a percepção sobre um país influencia a avaliação de produtos, marcas e serviços. “Made in Germany” evocava engenharia de precisão. “Made in Italy”, design e sofisticação. Já outros países, especialmente do Sul Global, enfrentaram estigmas difíceis de superar.
O exemplo mais emblemático talvez seja o “Made in China”. Por muito tempo associado à produção em massa, baixo custo e menor qualidade, o rótulo refletia uma posição específica na antiga Divisão Internacional do Trabalho (DIT): países centrais concentravam tecnologia e inovação; países periféricos, a manufatura intensiva em trabalho. No entanto, essa lógica vem se transformando rapidamente.
Hoje, a própria China é líder em 5G, veículos elétricos, inteligência artificial e manufatura avançada. O “Made in China” já não carrega um único significado - e, em muitos setores, tornou-se sinônimo de escala, eficiência e tecnologia de ponta. O rótulo não desapareceu, mas foi ressignificado.
Essa mudança não é isolada. A Índia é outro exemplo poderoso da reconfiguração do COE. De ex-colônia britânica marcada por uma economia primária, o país tornou-se um dos maiores polos globais de tecnologia, serviços digitais e produção de satélites a baixo custo, com missões espaciais reconhecidas internacionalmente. O “Made in India” começa a dialogar com inovação, engenharia e capacidade científica - algo impensável há poucas décadas.
Esse movimento se conecta à ascensão dos BRICS como atores centrais no comércio mundial. Brasil, Índia, China e África do Sul deixaram de ser apenas fornecedores de commodities ou mão de obra barata e passaram a ocupar espaços estratégicos em cadeias globais de valor, tecnologia, energia, agronegócio avançado e economia verde. A DIT, antes rígida, torna-se mais fluida e multipolar.
O resultado é um início de mudança de paradigma no Country of Origin Effect. Empresas de países que antes precisavam “neutralizar” ou até esconder sua nacionalidade em estratégias de branding internacional, hoje passam a reivindicá-la como diferencial competitivo. A origem deixa de ser um obstáculo e passa a contar uma história de resiliência, capacidade técnica e excelência emergente.
No contexto atual, o COE não desaparece - ele evolui. Em um mundo de cadeias produtivas fragmentadas, inovação distribuída e mercados cada vez mais atentos a propósito e contexto, a pergunta já não é apenas “de onde vem esse produto?”, mas “o que esse país representa hoje?”. Para empresas que sabem ler essa mudança, a origem pode deixar de ser um risco reputacional e se tornar um ativo estratégico.
Para quem deseja se aprofundar no conceito de Country of Origin Effect e em como a percepção de origem influencia decisões de consumo e estratégias empresariais, vale conferir autores clássicos como Bilkey & Nes (1982), Verlegh & Steenkamp (1999), além das discussões sobre nation branding de Simon Anholt.
Se você se interessa por como identidade nacional, cultura e estratégia se conectam no contexto brasileiro, recomendamos também a leitura do nosso artigo “Do Brazilcore ao Business: como a estética brasileira pode se tornar estratégia de posicionamento global”, que aprofunda o debate sobre reputação, narrativa e diferenciação no mercado internacional.