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Entre Boletos e Carteiras Digitais: Pagamentos como Estratégia na Internacionalização

Ao expandir um negócio para outros países, é comum que empresas concentrem seus esforços em aspectos como idioma, legislação, go-to-market, cultura local e estrutura societária. Esses elementos são, sem dúvida, fundamentais. No entanto, existe um fator frequentemente subestimado para o sucesso da operação internacional: os meios de pagamento.

Em um cenário de crescente digitalização e competição global, a forma como uma empresa permite que seus clientes paguem por seus produtos ou serviços deixou de ser um detalhe operacional para se tornar uma decisão estratégica de mercado.

Essa percepção não é apenas intuitiva. Segundo o Global Payments Report, da Worldpay, mais de 70% das transações de e-commerce no mundo já envolvem métodos de pagamento locais ou alternativos, e não cartões internacionais tradicionais. Ainda de acordo com o relatório, empresas que oferecem métodos de pagamento alinhados às preferências locais apresentam taxas de conversão significativamente mais altas.

Diante disso, não é raro que empresas bem-sucedidas em seus mercados de origem enfrentem dificuldades inesperadas ao entrar em novos países. Muitas vezes, o produto é competitivo, a comunicação é adequada e o preço é atrativo, mas a conversão não acontece. O ponto central é que não existe um método de pagamento universal. Cada país desenvolveu seus próprios hábitos, infraestruturas financeiras e níveis de confiança em diferentes instrumentos de pagamento. E essas diferenças importam.

No Brasil, por exemplo, o boleto bancário historicamente ocupou um papel central, especialmente em compras B2B e no e-commerce. Mesmo após a rápida consolidação do Pix, o boleto continua sendo amplamente utilizado em determinados segmentos, seja por questões de controle financeiro, seja por inclusão de consumidores e empresas com restrições ao uso de cartões. 

Já nos Estados Unidos, o uso de cartões de crédito é predominante, enquanto transferências bancárias são menos comuns no dia a dia do consumidor, refletindo uma cultura de crédito profundamente enraizada. Na Alemanha, muitos consumidores ainda preferem transferência bancária (SEPA) e débito direto, com uma postura historicamente mais conservadora em relação ao crédito. Na Holanda, por sua vez, o iDEAL é praticamente indispensável para vender online. 

Em países asiáticos, especialmente na China, o cenário é ainda mais distinto. Carteiras digitais como Alipay e WeChat Pay não são apenas alternativas, elas constituem o principal meio de pagamento, integrando consumo, identidade digital e serviços financeiros em um único ecossistema.

A periodicidade da cobrança de Saas é um outro fator, geralmente negligenciado, mas que tem um impacto significativo na conquista de novos clientes e na redução do churn. De acordo com o “SaaS Billing Report 2025”, da ChartMogul, planos de SaaS que são cobrados mensalmente têm maior capacidade de conquistar mais clientes - especialmente em novos mercados - pois reduzem o risco do consumidor e adicionam flexibilidade. Por outro lado, apresentam um churn maior, em contraste com planos anuais, em que há melhora na retenção e aumenta a previsibilidade do faturamento.

Ignorar essas diferenças pode gerar fricção, abandono do plano e até desconfiança do consumidor local. Por outro lado, adaptar os meios de pagamento à realidade de cada mercado aumenta a conversão, transmite credibilidade e sinaliza maturidade internacional e compreensão profunda do mercado-alvo.

The dominant mindset in the SaaS world is that pricing is an art, involving experimentation, psychology, positioning, strategy and vision, while billing is an execution problem.

But founders who ignore billing learn the hard way that while good pricing can sell a weak product, bad billing can sink a great one. (ChartMogul, 2025)

Em um processo de internacionalização bem-sucedido, entender como o cliente paga é tão importante quanto entender como ele pensa. Pagamentos não são apenas o fim da jornada de compra; são um ponto crítico de confiança entre a empresa e seu mercado.

Afinal, não basta estar presente em outro país. Para competir de forma sustentável, é preciso vender  (e receber!) do jeito certo.